quinta-feira, 5 de março de 2009

Metáfora intimista chinfrim

Ano passado comecei a tricotar um casaco de lã para mim. Fiz aula e tudo. Uma mistura de artesanato 'moderno' com instinto de Amélia. Sempre gostei muito de linhas e tecidos, rendas e bordados. Enquanto tricotava meu casaco, que já começava torto, ia acalentando dezenas de ideias, reunindo estes elementos em planos que incluíam, no seu extremo, até largar a faculdade e virar artesã.
Tive de abandonar minhas linhas no meio do caminho, junto com alguns pedaços de mim. Durante meses guardei no guarda-roupa este começo-metade (quanto espaço pode ocupar uma interrupção!), que me lembrava todos os dias das poucas perspectivas dos meus tantos pequenos grandes projetos.
Agora pude fazer algo melhor: desmanchei o pedaço de casaco torto e, com a mesma linha, comecei um cachecol pequeno e simples, mas que sei começar e terminar. Fiz tudo isso sem pensar, mas hoje, enquanto tricotava, percebi que este 'recomeço artesanal' servia como uma metáfora de mim: junto pedaços e teço novos sonhos com a mesma linha (sempre a mesma).
Tenho muito medo de largar projetos e sentimentos pelo caminho de novo. Mas me senti bem com a ideia de construir coisas novas – e possíveis, com aquilo que já tenho, e que antes representava somente perdas. Me apego novamente a agulhas a e linhas, mas com um sentido bem diferente. E gostei da sensação.

Ao som de Los Hermanos:

"Clareira no tempo
Cadeia das horas
Eu meço no vento
O passo de agora
E o próximo instante, eu sei, é quase lá...”


Um comentário:

Unknown disse...

Eu estive pensando no que falei. Achei a metáfora fantástica. Se tu estiveres te referindo a manta como uma etapa, ou parte do processo para chegar ao casaco, não discordarei em uma virgula. No entanto, acho que não podes desistir do casaco, pois não podemos desistir do que é mais dificil, apenas porque é dificil. não podemos perder a capacidade de sonhar, o encantamento, principalmente, a utopia, formadora da realidade. se o objetivo for o casaco, os caminhos podem variar, mas o importante é achá-lo. Não, desistir. Isto, pelo menos, eu acho. O que é só mais uma opinião. Parábens.