Sentado na varanda ele fumava quieto. Era sempre quieto, como quem desaprendera a falar por falta de prática. Enquanto fumava, pensava que era muito difícil mudar agora, depois de tando tempo, quase a vida toda. Sentia-se cada vez mais só: viúvo, distante da família, poucos amigos, e perdendo os filhos pouco a pouco – alguns já perdidos pra sempre. Perdidos por sua culpa. Era tão triste, e por isso tão desajeitado com as pessoas, que os afastara sem querer, e de um jeito irremediável.
Mas talvez não tivesse culpa. Fora infeliz desde a infância, que outro caminho podia esperar? A verdade é que não foi capaz de acompanhar todas as mudanças que presenciou. Nasceu naquela terra sem dono, no interior do estado, onde a modernização que o restante do país experimentava esqueceu de chegar. Lá, como em tantos outros lugares, a terra era de quem chegasse primeiro e tivesse armas o suficiente para permanecer. Quando criança, teve que fugir muitas vezes com a mãe e os irmãos, escondendo-se de outros que disputavam o mesmo lugar. Chegou a presenciar algumas mortes. Aprendeu a conviver somente com cavalos, bois, a mãe e os irmãos, totalmente submissos ao pai autoritário, no melhor estilo de uma típica fazenda patriarcal. Hoje, depois de tanto tempo, ainda é dono de uma parte das terras que seu pai manteve com esforço (e uma boa dose de tirania), mas não quer voltar lá: as lembranças como que brotavam do chão, e doíam demais.
Por tudo isso tornou-se rude desde jovem: os dedos grossos, os gestos autoritários, a fala seca. Nem sequer pôde estudar. Quem olha com atenção talvez perceba um abismo temporal que há entre este seu mundo e o que vive agora: seus filhos estão na universidade, tem internet em casa, revistas e jornais para ler, mas continua com os dedos grossos, os gestos autoritários e a fala seca. No entanto, a máscara da sua autoridade aos poucos começa a cair, mostrando que sua verdadeira face é triste e carregada de culpa. Tão triste que dói só de olhar. Enche os olhos de lágrimas nas raras vezes em que abraça alguém. Provavelmente acabará mais triste e sozinho.
Seus filhos ficam confusos entre amar e abandonar alguém que foi tantas vezes tão egoísta, mas que se mostrava tão frágil agora. E a convivência entre eles segue como está, um pouco de cordialidade tênue sustentada pela contenção dos sentimentos de todos, um entendimento implícito de que não podem se abandonar e não podem esquecer toda mágoa. Ficam na expectativa de que nunca precisem fazer nenhuma destas coisas, porque ambas são igualmente difíceis, se não impossíveis. Cada nova palavra, cada olhar, é uma tentativa, não se sabe ao certo de quê. Continuam caminhando no teto de vidro da casa que dividem, mas que nunca foi lar de ninguém.
2 comentários:
Mas o tempo ensina e tenho certeza que o arrependimento bate, que fere, que dói. E essa foi uma forma dele se proteger: ou para não magoar mais ou para se punir...
Uma dama que respeito muito me disse uma vez: ninguém aprende a ser pai ou mãe, vai sendo de um jeito ou de outro... E inevitavelmente os filhos sofrem as consequências disso tudo. Tentar compreender quem são essas pessoas, e aceitá-las ainda assim, como tu revelas em tuas palavras, é um amor que não tem preço, mesmo porque dessas pessoas ganhamos a vida...
E tu escreves lindamente, Polli Chan :)
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