"Do que de uma feita, por me valer, eu entendi o casco
de uma coisa. Que, quando eu estava assim, cada de-manhã, com raiva de uma
pessoa, bastava eu mudar querendo pensar em outra, para passar a ter raiva
dessa outra, também, igualzinho, soflagrante. E todas as pessoas, seguidas, que
meu pensamento ia pegando, eu ia sentindo ódio delas, uma por uma, do mesmo
jeito, ainda que fossem muito mais minhas amigas e eu em outras horas delas
nunca tivesse tido quizília nem queixa. Mas o sarro do pensamento alterava as
lembranças, e eu ficava achando que, o que um dia tivessem falado, seria por me
ofender, e punha significado de culpa em todas as conversas e ações. O senhor
me crê? E foi então que eu acertei com a verdade fiel: que aquela raiva estava
em mim, produzida, era minha sem outro dono, como coisa solta e cega. As
pessoas não tinham culpa de naquela hora eu estar passeando pensar nelas. [...]
Mas, na ocasião, me lembrei dum conselho que Zé Bebelo, na Nhanva, um dia me
tinha dado. Que era: que a gente carece de fingir às vezes que raiva tem, mas
raiva mesma nunca se deve de tolerar de ter. Porque, quando se curte raiva de
alguém, é a mesma coisa que se autorizar que essa própria pessoa passe durante
o tempo governando a ideia e o sentir da gente; o que isso era falta de
soberania, e farta bobice, e fato é.”
Riobaldo (João Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas)
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