Eu aprendi a ler em casa, e sinto não ter passado pelo ritual da 1ª série. Mas mesmo assim, vivi isso observando minha mãe alfabetizar as outras crianças. E isso foi tão marcante pra mim, que hoje estou aqui, prestes a me tornar também professora, e tentando ser exatamente como ela. Ficávamos todos na mesma sala de aula, dos sete aos onze anos, todos juntos compartilhando as mais diversas experiências. A Escola Municipal de 1º Grau Incompleto Manoel Lopes Ferreira era nossa casa durante as tardes da semana. Era casa porque tinha um pátio. Tinha uma cozinha. Tinha a horta. Tinha almofadas. Tinha chinelos de pano no inverno. Tinha balanço, bola e música no recreio. E tinha ela. Acho que ser aluna da própria mãe não é uma experiência qualquer. E em casa, eu ficava as manhãs ao lado da mesa da cozinha, vendo ela preparar suas aulas, e mexia nos livros, e perguntava e lia, queria ajudá-la... quanta paciência tinha com minha curiosidade impertinente. Até hoje fico horas e horas pensando, tentando compreender a lógica do seu ensinar, da educação que ela criava. Não consigo definir o modo como ela ensinava, apenas lembro das cenas, e as sensações estão ainda fortes demais, nostálgicas demais. Mas uma coisa é certa: algumas coisas importam mais do que outras quando se trata de educar. A dedicação, a preocupação com as crianças, a alegria sincera pela satisfação e pelos resultados alcançados por elas, o desejo, tudo isso eu sentia enquanto era sua aluna, e não é à toa que me lembro disso. Isso fez toda a diferença, e me ensinou a coisa mais importante, me ensinou a gostar de conhecer, e a observar o mundo de um jeito atento e calmo. Como isso aconteceu? Não sei. As coisas que ensinamos implicitamente são infinitas, às vezes indizíveis, e muito mais intensas do que aquilo que queremos explicitamente transmitir.* Talvez que aquilo que se sente e se deseja em relação à educação importe mais do que se declarar crítica, pós-crítica, freiriana, marxista, ou o que quer que seja. Sinto mais do que posso saber. E talvez seja melhor assim.
*Eu sei que não se transmite conhecimento, mas já se tornou tão óbvio falar em construção, que falo em transmissão para evocar um processo diferente daquele presente nos discursos pedagógicos. E também porque a ideia de transmitir, por mais que seja negada, ainda permanece no nosso “inconsciente escolar”, e por isso talvez seja melhor dar-lhe uma dimensão de imprevisível e incontrolável, ao invés de substituir, muitas vezes à força, por uma noção já tão comum e quase sem sentido de construção do conhecimento. Não sei, estou apenas compartilhando hipóteses.
“O que que é pensar, mãe?”
Um comentário:
professora Polliane,tenho certeza que suas aulas vão ser ótimas.
Postar um comentário