quarta-feira, 31 de março de 2010

linhas e pontos

  Queria costurar, fazer roupas. Mas nunca tive ânimo suficiente para me dedicar como gostaria... é o tipo de coisa que a gente deseja sem muita força, apenas em momentos de ócio ou súbita empolgação, que passa na hora de pôr em prática. Costuro algumas coisas de forma amadora. Gosto na verdade é do clima da costura: o cheiro do lubrificante da máquina, a diferença sutil nas cores das linhas, a prova da roupa ainda com alfinetes, a fita métrica no pescoço, as imagens da minha mãe costurando, medir, riscar, cortar, regular a máquina...
   Mas a melhor parte sem dúvida são os tecidos. Cada um tem um cheiro, e todos juntos tem o cheiro das lojas de tecido, onde me perco facilmente. A trama dá a textura para a pele e a cor e a estampa são a textura para os olhos.
   E a ciência da costura é algo muito complexo, que exige muito tempo, observação e inúmeros cortes errados para ser aprendida. Cada tecido tem um caimento diferente, e, portanto, serve para peças diferentes. Mas sempre se pode inventar e simplesmente não há uma regra. Você tem que saber, e só. Tocar e saber o que se pode criar com aquele tecido, e o tipo de linha e o tamanho certo da agulha. Isso é o que me fascina. Gostaria de já saber tudo isso. Mas a costura para mim acabou ficando apenas como uma curiosidade, que ora se transforma em saudade, ora em improviso, e ora num fechar dos olhos ao tocar um tecido e sentir um arrepio com o cheiro que os fios tramados têm.

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