Queria
costurar, fazer roupas. Mas nunca tive ânimo
suficiente para me dedicar como gostaria... é o tipo de coisa que a
gente
deseja sem muita força, apenas em momentos de ócio ou súbita empolgação,
que
passa na hora de pôr em prática. Costuro algumas coisas de forma
amadora. Gosto
na verdade é do clima da costura: o cheiro do lubrificante da máquina, a
diferença sutil nas cores das linhas, a prova da roupa ainda com
alfinetes, a
fita métrica no pescoço, as imagens da minha mãe costurando, medir,
riscar,
cortar, regular a máquina...
Mas a melhor parte sem dúvida são os
tecidos. Cada um tem um
cheiro, e todos juntos tem o cheiro das lojas de tecido, onde me perco
facilmente. A trama dá a textura para a pele e a cor e a estampa são a
textura
para os olhos.
E a ciência da costura é algo muito
complexo, que exige
muito tempo, observação e inúmeros cortes errados para ser aprendida.
Cada
tecido tem um caimento diferente, e, portanto, serve para peças
diferentes. Mas
sempre se pode inventar e simplesmente não há uma regra. Você tem que
saber, e
só. Tocar e saber o que se pode criar com aquele tecido, e o tipo de
linha e o
tamanho certo da agulha. Isso é o que me fascina. Gostaria de já saber
tudo
isso. Mas a costura para mim acabou ficando apenas como uma curiosidade,
que
ora se transforma em saudade, ora em improviso, e ora num fechar dos
olhos ao
tocar um tecido e sentir um arrepio com o cheiro que os fios tramados
têm.
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