Barracão, a cidade onde nasci e morei até os dezessete anos, fica no norte do Rio Grande do Sul, no limite com Santa Catarina. Minúscula, com seus cinco mil habitantes, possui características bastante particulares. Por exemplo, pode-se comprar qualquer coisa, em lojas e supermercados e, em vez de pagar ou usar um cartão de crédito, simplesmente anota-se o valor em um papel para pagar depois. A confiança é total. Outra característica é que todos se conhecem. Todos, literalmente. E todos, com maior ou menor grau de intimidade, sabem detalhes da vida dos outros. E quando não sabem, não se constrangem em perguntar. Pessoas que eu mal conheço ou não vejo há muito tempo, sabem onde moro, o que estudo, e conhecem toda minha família. Vida pública e vida privada aqui têm outro sentido. É como morar um condomínio pequeno, cujas relações de vizinhança foram expandidas para toda a cidade.
Nesta cidade calmíssima, onde pouco acontece, aconteceu algo engraçado. Há mais ou menos um ano, começaram a desaparecer algumas calcinhas das moradoras de lá. A princípio, foram apenas fatos isolados e engraçados. Mas os roubos se tornaram frequentes, e as mulheres passaram a registrar queixa na polícia. Apesar disso, o ladrão seguia invadindo as casas e roubando apenas calcinhas, sem deixar pistas.
Depois de um tempo, encontraram um suspeito, que foi preso. Por algumas semanas, o caso foi esquecido. Entretanto, os roubos voltaram a acontecer, desta vez mais espaçados. O ladrão parecia estar mais cuidadoso, com medo da polícia. Por fim, os roubos cessaram, e não se falou mais no assunto, apesar de o culpado não ter aparecido.
Agora, há aproximadamente um mês, na demolição de um galpão que servia como casa e oficina de carros de um rapaz, encontraram escondidas no sótão as centenas (sim, centenas) de calcinhas desaparecidas. Um detalhe: o galpão estava sendo demolido porque o antigo morador suicidou-se há quatro meses. O morto tornou-se, portanto, o principal suspeito dos roubos, sem que possa nem se defender.
Mas este acontecimento estranho não causou tantos comentários entre os moradores quanto uma viagem que o prefeito e alguns funcionários públicos realizaram com um ônibus da Secretaria da Saúde.
O excelentíssimo prefeito de Barracão, eleito pelo Partido Progressista (em uma inacreditável coligação como PT), é um rico fazendeiro semi-analfabeto, acostumado a mandar em seus empregados e a bater na esposa. Estando de férias, o prefeito resolveu ir até uma praia de Santa Catarina, levando consigo alguns funcionários da prefeitura, obviamente aqueles filiados ao seu partido. Para uma viagem assim, necessitava de um veículo maior, e escolheu, propositalmente, o ônibus da Secretaria da Saúde, o único veículo disponível para levar pessoas doentes a um centro de saúde próximo, no sistema que se denominou de “ambulancioterapia”.
Divertiram-se na praia o senhor prefeito e os funcionários. Divertiram-se tanto, que colocaram no Orkut suas fotos usando o veículo público para fins particulares. Um prato cheio para a oposição sempre atenta. A denúncia foi feita, e a história foi parar na televisão e nos jornais.
Infelizmente, este fato patético se tornou piada na cidade, onde o próprio prefeito ironiza a denúncia e reforça seu autoritarismo. Espero que o Ministério Público consiga fazer um pouco de justiça, porque isto certamente não vai acontecer através das urnas. Em Barracão, como em muitos outros lugares, a argumentação política não acontece: as ofensas são pessoais, os julgamentos são passionais, e o debate ideológico fica em segundo plano. Por isso, se não for punido pela Justiça Eleitoral, este ilustre prefeito e seu partido certamente ganharão as próximas eleições.
Além disso, a arrogância dos filiados ao Partido Progressista de Barracão não me permite ter muitas esperanças de que alguma coisa mude. Não escolhem maus políticos por ingenuidade, mas sim porque querem se beneficiar com os bens públicos, e não vêem nada de errado nisso. Não se importam com a cidade, e sim com seu próprio umbigo, numa atitude típica deste partido detestável que é o PP.
A direita em Barracão é tão ignorante que nem sabe se reconhecer como direita, sabe apenas proferir um discurso autoritário e hipócrita, para justificar práticas clientelistas. Lá, o único objetivo da administração do PP, infelizmente já no segundo mandato, é destruir o que foi feito pelas administrações anteriores, do PMDB.
Outro fato que presenciei lá também me deixou extremamente indignada, desta vez por perceber o abismo que separa os que possuem e os que não possuem acesso à educação. Eu estava no cartório, aguardando ser atendida, quando chegaram três velhinhos, um homem e duas mulheres, agricultores, muito pobres e provavelmente analfabetos. Precisavam de um “papel” para conseguir um empréstimo no banco. Mas não sabiam explicar qual o nome do documento, que precisavam levar ao banco dentro de meia hora para não perder o dinheiro. Os velhinhos estavam visivelmente constrangidos por não saberem se explicar, e a atendente do cartório não fazia o menor esforço para entendê-los ou deixá-los pelo menos mais à vontade. Atendia mal, com um ar de riso no rosto, quando poderia perfeitamente ligar para o banco (já que aqui TODOS na cidade se conhecem) e descobrir qual era a documentação exigida, e garantindo o empréstimo que eles precisavam.
Enfim, minha descrição acabou sendo passional também, como a política de lá, mas não importa. Queria apenas contar as histórias. E é quase estranho voltar para Barracão, esta cidade que me constitui e ao mesmo tempo me estranha.
Um comentário:
gostei muito de ler tua história! nem toda história tem final feliz mesmo... :)
escreves muito bem, Polli!!
beijo!
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