sexta-feira, 24 de julho de 2009

O Tempo e o Vento

Para Bibiana, Ana Terra, Maria Valéria e outras mulheres da família Terra Cambará, noite de vento é noite dos mortos. Para mim, esta noite de vento é noite de solidão. Noite de frio é noite de solidão. Me sinto mais sozinha no inverno do que em qualquer outro momento. E não pela situação em si, mas por todas as lembranças de outras solidões que só o frio é capaz de juntar, de forma quase cruel.
Não há solidão que seja cálida. Agora, em vez de abraço, aquecedor elétrico. Em vez de proximidade, isolamento devido à ameaça biológica (?) do momento. Em vez de conversa, este escrito (embora esta troca não seja necessariamente ruim, com certeza eu preferia escrever mais feliz). Para comer, em vez do jantar digno de uma sexta-feira gélida, tenho a comida rápida da padaria (esta sim não me abandona). Até na novela há separações esta noite.
Noite de vento, noite solitária, e também noite de esperar que, por algum milagre, força do pensamento, intercessão de algum santo, convergência das energias do Cosmo ou alinhamento dos astros, as horas corram um pouco mais. Só não sei exatamente para quê. Mas sobre a espera Roland Barthes já falou.
Para Veríssimo e suas mulheres de Santa Fé o vento maneia o tempo. Aqui, além de muitas roupas maneando o corpo, o vento maneia meu pensamento, meu entendimento, o tempo e todo resto. De qualquer forma, as noites de vento não são boas para dormir, ou sonhar.

"Sozinha no seu quarto, sentada na sua cadeira de balanço, e enrolada no seu xale, a velha Bibiana espera... O quarto está escuro, mas para ela nestes últimos anos sempre, sempre é noite, pois a catarata já lhe tomou conta de ambos os olhos. (...)Viu guerras e revoluções sem conta, e sempre ficou esperando. Primeiro, quando menina, esperou o pai; depois, o marido. Criou o filho e um dia o filho também foi para a guerra. Viu o neto crescer, e agora Licurgo está também na guerra. Houve um tempo em que ela nem mais tirava o luto do corpo. (...) Como o tempo custa a passar quando a gente espera! Principalmente quando venta. Parece que o vento maneia o tempo.”

"Sempre que me acontece alguma coisa importante, está ventando" - costumava dizer Ana Terra."

Um comentário:

Polliane Trevisan Nunes disse...

as bobagens que a gente escreve...